segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Inveja

Por Rubem Amorese

"Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem;
inveja é querer que o outro não tenha"(Zuenir Ventura)

Diferentemente da ira ou da gula, a inveja é uma condição emocional sorrateira. Ela queima como fogo de palha, por baixo, sem fumaça.

A ira produz erupções violentas; a gula compromete nosso manequim; a preguiça faz nosso chefe reclamar; a luxúria nos afasta até da família mais liberal; mas a inveja dificilmente aparece, pois o comportamento de um invejoso não difere muito de um crítico, de um ressentido, de um coração magoado.

Nenhuma dessas condições é, propriamente, inveja. Mas esta pode estar “orquestrando” a todas aquelas, por trás. Ela pode até mesmo produzir elogios e dar presentes. Este foi o caso de Saul, em relação a Davi. O rei entregou ao rapaz um comando em seu exército e lhe ofereceu a mão de sua filha em casamento — na esperança de fazê-lo “ir a óbito” (1Sm 18:5-29).

Como não sabe criar, o diabo distorce. Então, para produzir a inveja ele corrompeu a admiração, transformando-a no segundo pecado mais daninho que o ser humano já provou. Admirar é a capacidade de se deixar impactar pelo excepcional, pelo espantoso, de uma forma generosa, abnegada e contente.

Diz-se que a inveja só perde para o orgulho, em poder de destruição, em poder de potencializar o que há de pior no ser humano. A inveja é o maestro de nossos outros pecados. E corta para os dois lados: o do invejado e o do invejoso. A inveja é potencialmente homicida e suicida, ao mesmo tempo. Esse potencial raramente atinge seu clímax, revelando-se apenas como sentimento mesquinho, do tipo “se não posso ir a esse churrasco, que chova”.

Esse pecado advém de uma necessidade de nos compararmos com os outros. E ao encontrarmos neles motivos de admiração, sofremos, em vez de, simplesmente, nos alegrarmos. E aí está a obra do diabo: o invejoso sempre se compara e sofre com o bem dos outros que, para ele, é sempre maior e melhor (um problema de auto-estima). A grama do quintal do vizinho é sempre mais verde.

Assim, tudo começa com algo vindo de Deus: a capacidade de admirar e de se admirar. E nunca admiramos o trivial ou mesmo algo bom que tenhamos ou sejamos. Normalmente, só o narcisista admira algo que ele próprio tem ou é. Admira-nos aquilo que não encontramos em nós mesmos, como capacidades artísticas, dons, beleza, inteligência, posses etc. Em especial, quando alguém nos “vence” em algum ponto em que nos consideramos fortes.

É aí que o inimigo semeia a inveja, fazendo com que essa admiração se transforme de alegria em sofrimento, sem muita consciência da razão. Passo seguinte, inconscientemente desejamos “vencer” essa competição. Mas o inimigo não nos dá força para tal. Sugere-nos, ao contrário, o expediente de Caim. Ou o de Saul; com a língua desempenhando o papel da lança. Ou, se precisarmos de ajuda, que fundemos a fraternidade dos “irmãos de José”.

Sentir inveja é pecado. Mas tornar-se invejoso é mais grave ainda. Vemos em Pv 14:30 que ela nos faz adoecer: “a inveja é a podridão dos ossos”. E isso acontece quando esse pecado se instala em nossa alma. De alguma forma perversa, essa atitude “nos ajuda a viver”, criando em nosso coração mecanismos de auto-justificação. E o invejoso passa a achar que “o que fizeram com ele justifica sua reação”. Afinal, todos lhe estão devendo.

Aninhada na placenta do nosso coração, ela agora se multiplica em ninhada. Surgem, por exemplo, o ódio, a ira, o homicídio e uma infinidade de pequenas transgressões (cometidas pelo invejoso covarde), com um só objetivo: humilhar ou destruir o invejado. Vêm, então, a difamação, a calúnia, o desmerecimento, a crítica destrutiva, a palavra amarga e uma indisfarçável alegria com o infortúnio do outro. Do “inimigo”.

Resultado, esse pecado nos lança num mundo de trevas. Já não nos alegramos com o que temos ou somos (a não ser que ninguém mais tenha ou seja — mas aí já não tem graça); já não somos gratos a Deus pelo que nos deu (como pôde o Senhor abençoar aquela criatura!?); já não somos edificantes, e sim desconstrutores. Passamos boa parte da vida a nos comparar com os outros. E nossa baixa auto-estima nos faz “admirar” as coisas boas que encontramos neles — e isso nos consome! Está ficando pesado? Uma paradinha.

Dois amigos passeavam na calçada quando um deles chutou uma espécie de lata velha. Era uma lâmpada de gênio, que, tendo sido acordado, apareceu e disse: estive preso nessa lâmpada por muitos séculos e estou muito cansado. Portanto, vocês têm direito a apenas um pedido. Façam logo, pois não tenho tempo a perder. Um dos amigos, animado, pediu para ficar rico, e foi logo atendido pelo gênio. O segundo amigo viu aquilo tudo e pediu: quero que meu amigo volte ao que ele era antes.

Outra versão, mais dramática, diz que o gênio impôs uma condição para o pedido único: tudo o que um deles pedisse seria dado também e em dobro para o outro. Aí, o amigo invejoso se adiantou e pediu: quero que você me tire um olho.

Aí está a sabedoria popular a nos ensinar que o invejoso não consegue construir. Bastaria aproveitar a chance única e ser muito feliz. Mas a felicidade do companheiro torna-se um problema. E ele prefere destruir. Nem que precise sofrer.

Mas nem tudo está perdido. Deus colocou recursos espirituais à nossa disposição para vencermos a inveja. Eis alguns, encontrados na literatura como virtudes antagônicas a esse pecado: amor, gratidão, compaixão, misericórdia e lamento.

Examinando cada uma delas, faço minha opção pelo amor diligente. Aquele amor dinâmico, capaz de me transformar, pela busca do poder do Espírito de Deus. Ouça Jesus: “...eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Ouça Paulo: “abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis”. Ainda Paulo: “...pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber...”

Se eu examinar meu próprio coração(*) e me descobrir invejoso e, por isso mesmo, agredido, humilhado e perseguido por gente que, de “tão boa”, se tornou meu algoz — e quiser mudar—, buscarei o Senhor em meu quarto e lhe pedirei que me ajude a abençoar, a falar bem “pelas costas”, a elogiar esse “inimigo”. E pedirei mais: que Deus me dê oportunidades e meios (emocionais) de lhe “lavar os pés”. Sabemos que, na medida da resposta de Deus, a minha redenção se manifestará na forma de serviços a esse “inimigo”. Serviços que remodelarão meu coração egoísta em abnegado e generoso, capaz de, solidariamente, alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram. Serviços como aqueles com que meu Mestre serviu. E nessa atitude, “teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6: 4, 6 e 18).

Assim, mais uma vez, da cruz de Cristo e também da minha; da humilhação, agora voluntária, há de vir a vitória.

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(*) O Ministério da Saúde Espiritual adverte: este texto não deve ser utilizado em diagnósticos de terceiros. Serve apenas para introspecção. Não desaparecendo os sintomas, procure seu pastor.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Nana, nenê, Papai já vai chegar

Por Luiz Sayão


A infantofobia está generalizada na sociedade contemporânea. Seu odor nausenate é a presença crescente da pedofilia. A discriminação é total: os nenês não têm vez no mundo de hoje. Nações ricas agonizam, pois seus cidadãos se recusam a ter filhos, condenando o futuro a ser povoado por idosos, aposentados e enfermos! Enquanto isso, a mídia em geral apresenta com frequência a defesa dos direitos dos mais diversos grupos: o direito dos negros, dos árabes, das mulheres, dos índios, dos adolescentes e de muitos outros grupos são plenamente manifestos. Mesmo que não seja uma unanimidade, as mais diversas preferências sexuais também recebem uma apologética contundente. Animais silvestres, plantas raras, gatos e cachorros também são contemplados – afinal, eles merecem seus direitos. Até mesmo objetos cúlticos populares são protegidos legalmente contra a prática da discriminação.

Já no caso dos nenês, isso não acontece. Os milhões de abortos praticados são entendidos e explicados a partir dos “problemas sociais”. Ora, esses nenês não existem! Só seriam gente se nascessem. Além disso, as centenas de nenês abandonados pelos pais merecem apenas dó; mas, a mãe, é claro, não tem culpa. Estava em depressão! Precisamos, todos, entender “o lado dela”. Se ela tivesse matado uma ararinha azul, aí sim!, seria um crime inafiançável, uma agressão contra o meio-ambiente. Mas, abandonar uma criança... Logo surgirá alguém advogando a ideia de que é preciso entender o que a levou a tomar tal atitude, “Não podemos julgá-la”, não é verdade?

Os nenês jogados pela janela pelas mães ou maltratados em casa deviam ter maturidade para entender que aquelas mulheres que os puseram no mundo sofrem com problemas de depressão e com o estresse. Que meninos malcriados! Infelizmente, não existe o sindicato de defesa dos nenês para reclamar o direito dos mesmos. Assim, a infantoclastia se generaliza numa sociedade egoísta, narcisista e sem amor natural.

Na Bíblia, porém, não é assim. Os nenês têm lugar especial, ainda que a maioria dos religiosos e teólogos não se importe muito com eles também. Nem mesmo os teólogos libertários, mais atentos a causas sociais, dão a atenção devida aos nenês! No caso de Deus, é diferente. É impressionante como o Senhor gosta de criancinhas. Para começar, sua primeira ordem para o primeiro casal criado era simples: “Sejam férteis e multipliquem-se” (Gênesis 1.28), ou seja, era como se o Criador dissesse: “Tenham nenês”. Quando Deus constrói sua história de salvação através da Bíblia, os nenês têm papel importante. E tem outra coisa – nunca nenhum nenê voltou-se contra Deus. Eles são gente finíssima! A preocupação dos patriarcas escolhidos por Deus no livro de Gênesis era ter nenês. A promessa de Deus começa com uma aliança com Abraão, a prometer-lhe um filho (Gênesis 15.4). Nessa aliança, Abraão, o homem de fé, só ficou realmente feliz quando nasceu o nenê de Sara, sua mulher. A alegria foi tanta que a criança passou a ser chamada de “riso”, que é o que significa o nome Isaque. Depois, quando Rebeca, mulher de Isaque, encontrou dificuldades para engravidar, a bondade de Deus manifestou-se na forma de dois nenês: Esaú e Jacó.

A história da redenção divina poderia concentrar-se apenas em grandes batalhas ou em visões metafísicas, mas Deus faz questão de mostrar a primazia do nenê. Toda vez que alguma coisa especial estava para acontecer aos hebreus, surgia um nenê. Quando o povo de Israel viu-se subjugado pelos egípcios, quem surgiu para libertá-los? Um arcanjo poderoso? Um guerreiro invencível? Que nada! De novo, um nenê – Moisés, que aliás era um menino bonito e extraordinário. E coube a ele, já adulto, a grandiosa tarefa de conduzir o povo de Deus para longe de seus algozes. O detalhe é que os homens maus odeiam os nenês. O faraó quis matar todos os garotos hebreus nascidos no cativeiro, mas Deus, que ama nenês, fez com que Moisés sobrevivesse justamente porque a filha do rei egípcio se afeiçoou à criaturinha que resgatou das águas. E o que dizer de Herodes, que séculos depois mandou matar todos os nenês de Israel, na tentativa de liquidar o recém-nascido Rei dos Judeus (Mateus 2.16-18)?

A história continua, e no final da época dos juízes – o momento mais crítico da história do povo de Israel –, outro nenê, muito desejado por Ana, sua mãe, fez a diferença. O nenê Samuel chegou e, entregue pela própria mãe para ser criado no Templo do Senhor, foi usado por Deus para conduzir espiritualmente os hebreus na construção de sua nação. A supervisão divina na formação de um nenê merece atenção especial na Bíblia. O salmista dá-nos os detalhes, valorizando o nenê ainda não nascido, digno perante Deus e sem valor para os homens maus: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139.13-16).

No aspecto teológico, os nenês também estão numa situação privilegiada. Por exemplo, a relação dos fiéis genuínos com Deus tem como paradigma as crianças de colo. Ninguém como elas parecem representar verdadeira espiritualidade – o que valeu a advertência de Cristo a seus discípulos: “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste” (Mateus 18.10). Quando chegamos ao campo da hermenêutica, ou da recepção e compreensão da revelação divina, novamente a vantagem é de quem é mais parecido com um nenê: “Naquela ocasião Jesus disse: ‘Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos [literalmente, os nenês]. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado’” (Mateus 11.25,26).

Hoje em dia há uma grande discussão litúrgica na igreja. Qual é o louvor correto? Que instrumento usar? Que estilo de música é o melhor para a adoração? Tradicional? Avivado? Contemporâneo? Devemos louvar de frente? De costas? Sem costas? De lado? Tudo bobagem! Quem tem a resposta? Adivinhe – de novo, os nenês. Basta ler a Bíblia. “Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor” (Mateus 21.16). Aqui é até mais fácil entender: nenês não vendem CDs, não cantam para aparecer, são absolutamente sinceros e não têm aquele palavreado vazio de crente!

Talvez essa primazia dos nenês e a predileção divina por eles explique o ódio contra os pobres pequeninos. Imaginem só: no mundo dito civilizado, é um “direito” matar nenês antes que nasçam, e tudo dentro da lei, como na época no Estado nazista de Hitler, com sua política eugenista. Hoje, as nações do Primeiro Mundo estão sofrendo por falta de nenês. Perderam a esperança e o futuro. As pessoas instruídas, cultas e ricas não gostam de nenês. Essa é a verdadeira opressão! Os psicólogos gastam horas de trabalho ajudando muitas pessoas com problemas sérios e terríveis porque foram maltratados quando eram nenês. Que horror! Infelizmente, há até comércio de nenês. Que horror! Seres humanos são vendidos, vivos e mortos. Cuidado! O Deus, que é o Deus dos nenês, pode ficar irado e resolver agir.

A grande verdade é que o lugar dos nenês é tão especial que Deus resolveu mudar a história humana através de um deles. Em vez de descer diretamente do céu, ou de chegar repentinamente com um exército celestial para implantar seu Reino, o Senhor optou pela forma mais sublime de aproximar-se do homem: vir como um nenê. O evangelista Lucas descreveu o episódio com riqueza de detalhes: “Enquanto [Maria e José] estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê; e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lucas 2.6-7)

Diante disso, vale aqui lembrar as palavras de Madre Teresa de Calcutá, que parece ter percebido grande parte dessa importante realidade: “Temos medo da guerra nuclear e dessa nova enfermidade que chamamos de Aids, mas matar crianças inocentes não nos assusta. O aborto é pior do que a fome, pior do que a guerra”. Aqui vai um conselho espiritual: antes de ler a Bíblia e de fazer suas orações, procure um nenê, que de preferência esteja dormindo, e passe uns dois minutos em silêncio, olhando bem para ele. Você ficará mais pronto para meditar e falar com Deus. Mas deixe o nenê dormir em paz. Nana, nenê, que Papai do céu já vai chegar!